A propósito do "Casa comigo" e de outros acontecimentos recentes:

 

Não sei se amar é o melhor de todos os projectos. Sem dúvida que sei, porque aprendi, que partilhar a minha vida de uma forma intensa diariamente é algo que é um desafio. O amor é o ingrediente que facilita a coisa. Torna mais fácil quando estou em desacordo, quando tenho que fazer concessões, quando é preciso fazer algo que não me apetece.

Mas partilhar a vida, antes de mais, é uma decisão. É algo que não acontece por acaso, fruto de um qualquer toque de mágica, de algo que cai do céu aos trambolhões. Uma vida a dois é perceber que, apesar de o outro não ser perfeito, apesar da vida afinal não ser como imaginei, apesar de muitas coisas que se passam e não são ideais, percebo e aceito tudo isso porque quero. Aceito a imperfeição do outro porque aceito a minha própria imperfeição.

E depois há o diálogo. Ingrediente mesmo indispensável. Sem o qual não há remédio nenhum. O amor também facilita. É ele que possibilita essa abertura de espírito que me leva a querer contar o que me vai na alma, o que está no fundo de mim mesma, essas pequenas coisas que até para mim são pequenos segredos e que afinal compõem quem eu sou. Esta partilha íntima possibilita um conhecimento ímpar e é algo que considero sagrado. Sagrado poder ouvir e conhecer tais meandros do outro. Sagrado poder também partilhar esses pequenos recantos do meu ser.

E há o respeito. Também um ingrediente mesmo indispensável. Sem o qual não há remédio nenhum. Partilhar a vida são anos e anos de convívio, de estar com. É preciso estarem os dois no mesmo nível, olharem-se nos olhos, reverem-se um pouco e perceberem que o restante é individual. Sem dramas, sem exigências, sem posse. O respeito dá lugar a que exista liberdade, a liberdade de repensar, de reequacionar, de requerer. Também aqui o amor facilita a coisa.

E há outras coisas: confiança, honestidade, clareza, perdão, ...

Muito se fala de amor. Às vezes, a imagem é de algo não muito saudável, não muito real. Algo do tipo "És a mulher da minha vida" ou "Contigo vou até ao fim do mundo" e outras coisas parecidas. Podia aqui desfazer essas frases que são demasiado ingénuas, que compreendo dentro dum contexto de alguém que ainda não viveu o suficiente para perceber que há mais vida para além desses encontros por muito fortes, arrebatadores e apaixonantes que sejam.

Paixão é uma coisa, Amor é outra coisa, Partilhar a vida é uma outra coisa. Tempos e etapas diversas que requerem atitudes adequadas. Subjacente o desejo de viver a vida, aproveitar as oportunidades, fazer de cada dia um dia fantástico com o que nos é dado. O desejo também de dar, de contribuir, de permitir, pelas minhas atitudes, acções e palavras, que a harmonia seja algo possível e real.

 

 

 

publicado por an-dando às 09:33