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an-dando

Quando me escrevo, descrevo. Quando descrevo, estou. Quando estou, dou.

an-dando

Quando me escrevo, descrevo. Quando descrevo, estou. Quando estou, dou.

A propósito de olhares - II

09.04.24

Não sou de primeiros olhares. Fustigada pela vida, dorida por desenganos, agora desacredito. Talvez tenha deixado de ser ingénua.... Realmente não sei se as experiências que vivi me ensinam ou me enganam. Tomo a floresta por uma única árvore, como se tudo fosse igual. 

A propósito de olhares - I

09.04.24

Não sei na verdade se tudo começou naquele primeiro olhar. Parece-me que, antes mesmo do olhar, houve como que uma intuição, algo indefinível que levou a que o meu olhar se movesse naquela direcção. A questão é mesmo essa: qual a razão que leva a que os meus olhos se movam num determinado sentido e não noutro? Quando vagueio pela rua, sem destino e sem propósito, onde me levam os meus olhos? Porque me detenho numa flor e não na sua vizinha logo ali ao lado? Porque, de entre tudo o que está no âmbito do meu olhar, os meus olhos escolhem ou poisam num determinado pormenor? Não tenho qualquer explicação para estes factos. No entanto, os meus olhos podem levar-me a tomar um determinado sentido. Pergunto novamente: Serão realmente os meus olhos ou algo mais subtil, mais indefinível, mais inexplicável? Ainda mais: será que os meus olhos têm a capacidade de, com o seu foco, determinarem o meu dia de amanhã, o meu futuro? Onde me detenho? O que procuro? A que dou valor, intenção? O que vejo por detrás daquilo que olho? Vejo a flor ou vejo a Primavera? Vejo a rua ou vejo o caminho?

Oh porque é que é tudo tão complexo dentro de mim?

Um breve primeiro olhar

09.04.24

Lançou um breve primeiro olhar sobre a folha de papel em cima da mesa. Percebeu logo que aí havia algo muito surpreendente. Não eram as palavras, nem os números; era o que representavam. Ali estava escarrapachado, preto no branco, o drama que iria alterar a sua vida para sempre. Talvez que, para outros, essas palavras e esses números nada dissessem. Porém, para si, tinham um imenso significado. O que dizer? O que fazer? Dirigiu-se à janela e contemplou o exterior. Olhou demoradamente o imenso jardim, o buxo impecavelmente cortado, os canteiros perfeitamente desenhados, as cores das flores com uma harmonia fantástica... tudo ali era belo e perfeito no apogeu dessa Primavera. Costumava deleitar-se com essa visão, ao final da tarde, sentado no alpendre. Agora, sabia que tudo isso iria terminar. Não tinha antecipado tal desfecho. Talvez por ter estado demasiadamente confiante em si mesmo. Como poderia ter sido de outra forma? Tudo, mas tudo e todos ao seu redor se submetiam aos seus desejos e caprichos, tudo e todos se apressavam a aceitar os seus tenebrosos negócios, tudo e todos se rebaixavam quando, de uma forma insidiosa, lhes propunha esquemas fraudulentos. Batiam palmas, elogiavam a sua inteligência, a sua sagacidade e esperteza.

Regressou de novo à mesa e olhou o papel. Não havia dúvida. Ali estava escrito: “Enganas-te. 3 é igual a 3 e 1 não é igual a 3”. Como teriam descoberto? Toda a engenharia de números que tinha usado mostrava claramente, até ao mais perspicaz, que 1 era igual a 3. Quem ousava duvidar? Quem ousava agora pôr a nu o que durante tanto tempo tinha estado escondido?

Tremeu por dentro. Lá no fundo de si mesmo sabia que aquele pedaço de papel desvendava o que durante toda uma vida havia escondido. Incrédulo, percebeu que um capítulo tinha chegado ao fim.

Irritado, queimou o papel. Iria continuar o circo e seria o mais perfeito ilusionista em cena.

Porém, não foi assim. A loucura em que vivera entrou-lhe pela alma e foi-o destruindo por dentro. Passado algum tempo, não restava senão um farrapo de si.

NUNCA MAIS

07.04.24

Aquilo era mais do que uma afirmação. Era um grito de revolta provocado por dramas, desilusões, torturas e desalentos. Era a determinação a sair por todos os poros, a certeza de intervenções mais duras caso não houvesse mudanças.

Era um grupo de jovens, cheios de foco, de entusiasmo, também de ilusões ainda não desfeitas pela dureza da vida.

A sua energia era contagiante e eu deliciava-me a olhar para os seus rostos e movimentos decididos. Mostravam sem sombra de dúvida que o mundo era deles.

A mim, mostravam que o futuro estava garantido, não seria deixado ao acaso; aqueles jovens contaminariam outros e levariam adiante os seus ideais.

Aqui a vida acontecia.

Começos

18.03.24

Quando ele lhe disse: “Sabes, na verdade, posso muito bem viver sem ti”, o seu pequeno coração estremeceu de alegria. Até agora, os seus apaixonados sempre lhe tinham dito: “Não posso viver sem ti!”.  Deviam pensar que isso era sinónimo de amor profundo. Para ela, era simplesmente sinónimo de prisão. Queria lá uma pessoa que se colocava na sua dependência? Como se isso lhe pudesse dar algum poder? Seria o que pensavam? Que ela imaginaria que, dessa forma, teria todo o poder nessa relação? Que disparate... Nem queria poder, nem queria dependência!

Depois, ele acrescentou: “Bom, sem ti não será a mesma coisa... Como sinto um enorme prazer em estar contigo, em conversar contigo, em passear contigo ... penso para mim mesmo que gostava de multiplicar esses momentos e poder partilhar-me mais profundamente esperando que também seja teu desejo partilhares-te”.

Ah... a partilha! Sim, a partilha de gostos e desgostos, de sucessos e falhanços, de risos e choros, de sonhos e ilusões... a livre partilha da vida, isso sim, isso era na realidade o que podia ser.  Nada de amor para sempre, mas essa vontade de partilha, renascida em cada dia. Para ela, essa partilha não seria total e ininterrupta. Também precisava dos seus momentos, dos seus amigos, do seu silêncio, enfim de cuidar do seu Eu. O que é que ele pensaria acerca disso? Decidiu nada lhe perguntar e esperar para ver.

Respondeu simplesmente: “Sabes? Também eu posso viver sem ti. De facto, é o que tenho feito desde que nasci e até agora.” E sorriu-lhe com um ar traquina. Continuou: “Porém, ter a oportunidade de me partilhar e de alguém por quem tenho muito carinho se partilhar comigo, é uma aventura fascinante e uma dádiva do Universo que gostaria de receber com muita gratidão.”

Os seus olhos encontraram-se, partilhando de uma forma diferente aquele primeiro prolongado momento. A ternura multiplicou-se, algo de indizível estava a acontecer. Um doce começo? Pergunta a que o tempo iria responder...

Chamaste

20.02.24

Estava eu à porta quando me chamaste. Fiz de conta que não ouvi, até me virei para o outro lado. Que coisa! Sempre a chamar, a chamar... Preciso de paz, de estar comigo, de tranquilidade! Não quero que estejas sempre a incomodar-me. Claro que gosto que me chames, mas sempre? Sempre não, não quero.

E sabes porque não quero? É que, para além de ser uma chatice para mim – isto é realmente um egoísmo da minha parte, egoísmo aliás a que tenho todo o direito – é uma mentira. Porquê? Pensa bem. Qual a razão desse chamar, chamar? Não és tu um adulto, uma pessoa capaz, inteligente, admirado pelos teus colegas? Então porque queres fazer-me crer que precisas desesperadamente de mim em todas as situações? Deixa-me dizer-te que essa forma de adulação não funciona. Cansa-me.

 

Chamei-te. Vi perfeitamente o teu suspiro e o virar da cara. Queres ignorar-me. Isso dói-me. Queria-te mais perto de mim, menos arisca, mais amorosa, mas tu pareces não ligar. Por vezes pergunto-me quando anunciarás que te vais embora. Não sei o que fazer perante essa frieza. Então, chamo-te novamente. Pode ser algo estúpido, visto que não tem o resultado que pretendo, mas que queres? Não sei fazer de outra maneira... 

 

 

Estava eu à porta quando me chamaste. O meu coração alvoroçou, a minha face enrubesceu, fiquei desajeitada sem saber o que fazer. Queria correr para ti, mas por outro lado não queria que soubesses o quanto fiquei vulnerável. Deitei-te um olhar rápido e vi-te sorrir. Sorri para dentro e continuei o meu caminho. Ao contrário do que sentia, não fui capaz de te responder.

 

Chamei-te. Vi perfeitamente que estremeceste, querendo esconder o que sentiste. Isso deixou-me cheio de entusiasmo. Percebi a tua timidez, o teu receio. Soube que ainda não era o momento, que era preciso esperar, continuar a namorar-te de longe... Ah sim, mas havia um “ainda” que me deixou eufórico. Agora “ainda” era assim, mas mais tarde quem sabe o que poderia acontecer...

 

 

Estava eu à porta quando me chamaste. Que quererias tu agora? Sempre tinha embirrado com aquela vizinha. Não a suportava porque ela toda se derretia, dengosa, a dizer piadas sem graça, a fazer-se simpática e melga. “Diz lá o que queres desta vez?” Oh, mas oh porque é que eu não a mandava passear? Porque é que eu tinha de ser sempre bem educadinho, comportado? Por vezes não me suportava também a mim mesmo. 

 

Pode ser assim o chamar. Um pedido de encontro, de companhia, um apelo da alma, um desejo de partilha, de calor. Por vezes acerta e faz faísca; outras vezes não acerta e faz outro tipo de faísca.

Vida complicada

16.02.24

e eu às voltas sem saber como explicar o que tinha sucedido. não fora por mal, não fora intencional, mas fora... tinha sido eu. não sabia porquê, não sabia como, fora um momento de loucura. sim, poderia dizer que fora um momento de loucura. um momento de loucura é permitido, não é? um pequeno, pequenino. mas logo me vinha à mente a enorme discussão que aquilo causara. e então a reacção da dona marta! a dona marta, na sua confusão, sem perceber nada, mas toda enxofrada, supondo sem sombra de dúvida que toda a vizinhança iria saber. era por isso a sua raiva. não ponham o meu nome nisso, não me quero nas bocas do mundo. se ouço dizer alguma coisa dessas, nem sei do que sou capaz! o senhor pereira, oh querida tem calma, não é nada disso que estás a pensar. foi só alguém que se enganou, pronto. não dês tanta importância. e ela, não dou importância, não dou importância quando o meu nome, o nosso nome, pode estar manchado? claro que dou importância e muita! 

oh vida complicada...

O primeiro banho

16.02.24

O primeiro banho

 

Lá vai a D. Joana,

Joana Barrambana

Outrora moça serrana

Depois virou tricana

 

Sabem o que aconteceu?

 

Com um jeito pretenso

A pegar no cântaro, no xaile e no lenço

Com a respiração em suspenso

Decide dar um passo imenso

 

Logo um sapo irrompeu

 

Na pedra escorrega a tamanca

O avental se lhe arranca

Rodopia a saia na anca

Voa o lenço da carranca

 

Splash... e um grande grito o ar varreu!

 

D. Joana irada

Toda ensopada

Envergonhada

No Mondego mergulhada

O que é o feminino?

13.12.23

Mulher, onde está a tua beleza?

Onde está a tua graça, Mulher?

Não deixes que o medo tolde a pureza do teu olhar

 

Mulher, onde está a tua força?

Onde está a tua paixão, Mulher?

Não deixes que o medo tolde a visão da tua alma

 

Mulher, onde está a tua ternura?

Onde está a tua fragilidade, Mulher?

Não deixes que o medo tolha a coragem do teu coração

 

Mulher, ergue-te com o teu corpo inteiro

Olha nos olhos o ontem, o hoje e o amanhã

Certa de que tens dentro de ti

A semente da vida

A semente da sabedoria

A semente do mundo

 

Mulher, lembra-te

de que estares aqui é algo divino

de que das tuas pequenezas e imperfeições

podem nascer as mais belas e perfeitas

criações da natureza

 

Por isso, Mulher,

Canta a tua feminilidade,

Dança com o Sol e com a Lua,

Deixa passar as águas inquinadas da subestimação,

Sai dos terrenos lamacentos da violência e da agressão,

Trilha o caminho que realmente é o teu,

Acolhe a dor e a tristeza da Humanidade,

E dá à Vida o teu Valor, a tua Essência,

A tua Dádiva de Amor...

A tua Verdade.

O Lápis

13.12.23

O lápis, vermelho e muito direito, assomou ao palco da escrita e declarou, olhando para o autor com um sorriso matreiro: “Sem mim, não és nada!” E continuou: “É que as ideias estão-te na cabeça e aí ninguém entra. A menos que se transformem em algo tangível, visível, concreto, não servem para nada. Aí fechadas dentro dessa tua caixa, é como se não existissem, não te parece?” O autor não se mostrou interessado naquela conversa que considerou muito parva. Porém, o lápis não desistiu: “Tu não me ouves? Não vês que sou muito mais importante do que tu? Julgas que, lá por conseguires pensar, falar e fazer muitas coisas, és mais do que eu? Pensas mal! Na verdade, é comigo que contas para revelar o que é etéreo, invisível, de facto inexistente. Sou eu que, com os meus rabiscos e aranhiços, dou forma a isso que chamas ideias, pensamentos, imagens. E digo-te mais. Quando pensas que aquilo que escreves é de tua autoria, olha que nem tudo é. Simplesmente sou eu que, impulsionado pelas letras, pela forma, pela sequência com que aparecem no papel, sou eu que, por vezes, continuo o esquema, essa composição, essa imagem que vai surgindo como um desenho. Se bem que nada me digam, sou capaz de ver e de continuar a sequência e até inventar desvios, criar outros símbolos, iniciar caminhos, alocuções diferentes.”  

O autor, sorrindo, acabou por compreender aquela arrogância. Coitado do lápis! De tanto escrever, já ia em metade do seu tamanho original, o bico estava agora gasto e rombo, a outra extremidade estava roída por pensamentos e hesitações. Claro que aquele tonto lutava pela sua própria existência como um velho que se mantém agarrado à vida reforçando laços com os que lhe são queridos, justificando e ampliando a sua utilidade, o seu préstimo. Rolou-o entre os dedos como se fizesse uma carícia a esse companheiro de silêncios, de deambulações da sua mente, de escreve e apaga e torna a escrever. Lentamente, guardou-o na gaveta da escrivaninha.

 

Passaram muitos anos, talvez cem, talvez duzentos, perde-se a conta. Umas mãos curiosas abrem a gaveta da mesma escrivaninha, agora noutra casa, noutro ambiente. Os olhos encontram a metade do lápis vermelho, de bico rombo, e roído na outra extremidade. Pega-lhe, arranja uma folha em branco e, com as suas mãozinhas inexperientes começa a riscar, a curvar e torna a riscar. Ao fim de um breve momento, grita entusiasmado: “Mamã, mamã, olha um barco!”